RECORDAR PARA MELHOR COMPREENDER

RECORDAR PARA MELHOR COMPREENDER

Bob Dylan: compositor, tocador, cantor e escritor

E por tudo isto é também o primeiro nobel da literatura a receber semelhante distinção no mundo da música. Robert Allen Zimmerman, é o seu nome de nascença, mas desde cedo quis ser Bob Dylan em homenagem ao poeta Dylan Thomas, de quem devorava todos os poemas que dele apareciam. De Minnesota deu o salto para Nova Yorque onde conheceu o cantor-activista Woody Guthrie. Cantou-o até mais não e aos poucos entrou no estilo dos blues e do folk. Como ele próprio afirmou "quem quer compor canções deveria escutar tanta música folk, estudar a sua forma e estrutura e todo o material que existe desde há 100 anos". A Academia Sueca concedeu a distinção ao músico “por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição americana da canção”. E bem pode dizer-se que está certa a academia pois é o mesmo Bob Dylan que se gosta de ver pertencente a uma irmandade de escritores cujas suas raízes estão no country puro, no blues e na estirpe folk de Guthrie, da família Carter, Robert Johnson y dezenas de "baladistas" escoceses e ingleses.

Marsuilta associa-se à distinção da academia sueca e traz à memória letras de várias canções de Bob Dylan, bem como uma entrevista que concedeu em 2004 e ainda outros link´s onde se pode conhecer o mundo de Dylan. Enquanto dele se escreve, ele continua a dar concertos e a escrever diariamente, um hábito que guarda desde há muito tempo.

http://elpais.com/diario/2004/05/01/babelia/1083366381_850215.html?rel=mas

http://bigslam.pt/noticias/homenagem-do-bigslam-ao-vencedor-do-premio-nobel-de-literatura-de-2016-bob-dylan/

http://cultura.elpais.com/cultura/2016/10/13/actualidad/1476381455_398709.html

http://observador.pt/especiais/bob-dylan-esta-do-lado-certo-da-historia/

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ACONTECE, ACONTECEU OU VAI ACONTECER



Ciclo de cinema no CCB - Lisboa

Próximos filmes: 18 março O LEOPARDO Luchino Visconti (1963)
14 abril OS DEZ MANDAMENTOS Cecil B. DeMille (1956)
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Carlos Paredes - Evocação e Festa da Amizade

Esta evocação realiza-se no dia 19 de Fevereiro, pelas 15 horas, na Salão d' A Voz do Operário, em Lisboa e é organizado pela Associação Conquistas da Revolução.

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Tertúlias em Ciência

Céu e Mar "Making of", acontece no dia 15 de fevereiro, pelas 17 horas (C4.piso3).

Esta sessão promovida pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, tem a responsabilidade organizativa de Pedro Ré.

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Vanguardas e neovanguardas na arte portuguesa - Séculos XX e XXI. esta é a nova exposição que está patente de terça a domingo no museu nacional de arte contemporânea, em lisboa.

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XXI Exposição de Pintura e Escultura

Esta exposição que mostra obras de vários artistas de arte contemporânea portugueses vai decorrer no Clubhouse do Golfe, nos dias 11, 12 e 18 e 19 de Fevereiro, aos sábados e domingos, das 12h00 às 20h00. A organização está a cabo do Belas Clube de Campo, do Banco Populare a daPrivate Gallery .

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

à Marta, professora agredida na escola

vamos ouvindo aqui e acolá, pelos professores, pelos alunos, nas rádios e televisões, notícias de agressões a professores dentro e fora da escola. pensamos, pais e professores, que na nossa escola ou na escola dos nossos filhos, tal não vai acontecer. mas um dia acontece e o silêncio instala-se, o medo conduz-nos e a tristeza demora a sair. porque desta vez foi na minha escola o silêncio rompeu-se e as palavras saem com força. à marta marsuilta presta o seu apoio e consideração.

texto escrito por marta h. luís
setembro 2016
Marta. ao começar assim esta crónica qualquer um pensará provavelmente numa pessoa do sexo feminino, ou não. pode pensar que se trata de um texto  de carácter onomástico, ou não. pode pensar de muitas maneiras, podem ao cérebro chegar muitas imagens, ou não. não prolongo a dúvida, vou mesmo escrever sobre a Marta: uma mulher, professora de profissão.
O mundo tem muitas previsibilidades, coincidências, proximidades, contiguidades e outras tantas casualidades, discordâncias, afastamentos, descontinuidades. o mundo tem coisas, escreveu Saramago, e tem muitas outras e provavelmente é por todas elas que acreditamos na vida e neste mundo, ou não.
Marta, mulher, nome próprio, de apelido Ascensão. Marta, mulher, pseudónimo, de apelido Luís. Ambas professoras de profissão, ambas professoras na mesma escola, ambas integram várias turmas nessa escola. ambas por isso estão lado a lado em reuniões, ambas partilham informação sobre alguns alunos, ambas partilham ideias, uniformizam comportamentos para a promoção do sucesso e prevenção da indisciplina. afinal o “normal” no quotidiano entre colegas da mesma escola e dos mesmos conselhos de turma. são de grupos disciplinares diferentes, mas podiam até não ser pois este ano a novidade é a escola ter coadjuvações na sala de aula. mas nas nossas disciplinas tal não acontece.
Eu, Marta de pseudónimo, aprecio a Marta, de nome próprio. aprecio o seu rigor, a sua seriedade e exigência no trabalho como directora de turma, aprecio o seu esforço e empenho no acompanhamento dos seus alunos, na proximidade e diálogo com os encarregados de educação na tentativa de tornar os alunos mais responsáveis e melhores como pessoas. a Marta é uma professora que gosta da sua profissão. conheci a Marta há um ano, não sei o seu vínculo à escola, não sei se é contratada ou não, se está entre os milhares de professores que ano após ano não sabem onde vão ficar, se já calcorreou meio país, ou país inteiro, se conheceu tantos filhos e o mesmo número de mães (não haverá com certeza esta paridade), se esteve em meia dúzia ou uma dúzia de escolas, se viu escolas onde o frio penetra e não deixa espaço para a atenção, se viu escolas com paredes nuas, ou escolas com bancos salpicados de cores alegres, escolas onde os alunos se estendem em dias de sol no jardim de flores, ou escolas onde a chuva escorre num canto dos pavilhões. pois não sei muito da Marta, facilmente se vê, mas sei da nossa escola. não será das mais bonitas e arranjadas, mas é uma escola onde os professores são comprometidos com o desejo de ensinar, com a vontade de aprender e de  aperfeiçoar. uma escola que tem uma visão, um sentido de colaboração e de presença na vida dos alunos. uma escola que não volta costas ao presente e quer agarrar o futuro com mais qualidade. penso na nossa escola assim e tudo isto conta muito para o ser-se professor. não sei se a Marta pensará como eu, ou se pensava e deixou de pensar, ou simplesmente nunca o pensou. sei que a Marta ontem foi brutalmente agredida na escola, na nossa escola, na sua aula, por um aluno. e hoje há indignação, as vozes silenciaram-se, os alunos retraíram-se, alguns terão medo, outros apreensão, passam palavras, especulam, olham para o lado, discriminam provavelmente. eu, Marta de pseudónimo, escrevo, escrevo para mim, escrevo para outros professores e também escrevo para a Marta, de nome próprio. hoje, em mim e talvez noutros colegas, emergiram as dúvidas e as incertezas do nosso papel, afinal onde estamos? como caminhamos? quais os alunos à nossa frente? estou triste, estamos tristes. à memória vêm-me as lutas dos professores, a minha própria luta, a luta pela dignificação da nossa carreira, a luta pela vinculação dos professores contratados, a luta pela degradação do ensino, pelas turmas de 30 alunos, pelos horários esgotantes de docentes e discentes, pelas alterações constantes da sua componente lectiva, a luta pelas mudanças constantes de currículo, pela escassez grave de funcionários, a luta pela valorização da escola pública, a luta pela valorização do professor. e à memória vêm-me também os problemas da vida, as carências familiares, a miséria de todo o género e a minha luta na consciencialização desta realidade, porque o mundo tem coisas, porque o mundo está diante de nós e precisa de mim, da Marta e de todos para o tornarmos melhor.
Fecho a crónica sem o pesar do olhar e o nervoso da fala. desejo muito à Marta um voltar mais forte, um voltar com um sorriso, um voltar no acreditar numa escola emancipadora, numa escola onde a eliminação das assimetrias seja uma das suas verdades e um dos seus propósitos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Entrevista à jornalista israelita Amira Hass

Já viveu em Gaza e agora vive na Cisjordânia. de Gaza diz inapelavelmente que é um campo de concentração, com dois milhões de pessoas presas; na Cisjordânia observa a sucessiva construção de colonatos. Há 22 anos que Amira Hass conta ao mundo a crueldade dos israelitas sobre o povo palestiniano. A entrevista ao público, conduzida por alexandra lucas coelho, é de obrigatória leitura.

Na noite em que nos reencontrámos em Ramallah, onze anos depois da última entrevista para o PÚBLICO, Amira Hass tinha acabado de mandar para o Haaretz, diário israelita onde trabalha, uma investigação sobre como o exército israelita está a tornar deficientes muitos jovens palestinianos, que atiram pedras, ao disparar balas de verdade para as pernas. A história ia ser o destaque de primeira página no dia seguinte, Amira estava contente, achava “corajoso” da parte da direcção. Há 22 anos que o trabalho dela é contar aos israelitas a realidade dos Territórios Palestinianos Ocupados, primeiro em Gaza, onde morou três anos, e desde então na Cisjordânia. Dependendo dos editores, das épocas, nem sempre foi fácil, apesar do Haaretz ser considerado um jornal de esquerda, hoje uma raridade em Israel. Começámos pela nova geração na Palestina (ver reportagem na edição de domingo).

Como viu o levantamento de jovens há um ano, que chegou a ser chamado de Intifada?
Chamo-lhe levantamento privado. E mesmo em relação ao termo levantamento, sou cautelosa. Certamente não Intifada, porque isso implica um movimento popular, toda a gente mobilizada, o que não aconteceu. Mas havia uma sensação de revolta. Foi uma revolta privada.
No sentido de individual?
Porque eles decidiram sozinhos, sem nenhuma organização. E a sociedade teve muitas oportunidades de se juntar, de fazer grandes manifestações, e não o fez, decidiu contra um levantamento, claramente. Só houve manifestações alargadas pela devolução dos corpos [de jovens palestinianos, atacantes ou suspeitos de quererem fazer ataques, que foram mortos pela polícia].

Mas sendo uma revolta privada, aqueles miúdos representam sentimentos de muitos, de que as pessoas já não aguentam mais isto. Não foram apenas razões políticas, mas também pessoais, psicológicas. E muita gente podia empatizar com esse sentimento, de que a vida já não merece ser vivida. Uma ideia muito perigosa, mas essa era a mensagem. E havia ódio, claro, porque as pessoas têm todas as razões para odiar. Não me surpreende que o tenham feito, surpreende-me que mais não o tenham feito. A sociedade reagiu de forma um pouco esquizofrénica. Por um lado, honrou-os como heróis, por estarem a fazer a revolta que mais ninguém fazia, por outro duvidavam que tivessem esfaqueado ou o quisessem fazer.
Há várias diferenças entre os casos. Viu padrões?
O desejo de imolação teve um grande papel. Mas vejo esse desejo desde a Segunda Intifada [2000]. Portanto, não sei se é uma coisa da geração do Facebook.
Um seguir o outro.
Sim, imitar. A imitação era perturbante. Via-se isso. Li os interrogatórios de alguns miúdos presos por terem com eles uma faca, e alguns diziam que tinham visto aquilo no Facebook: vamos comprar uma faca, vamos esfaquear um judeu. Depois, o único judeu que reconheciam era um religioso, ficavam com medo porque havia soldados, desistiam, portavam-se de forma suspeita, porque os israelitas já suspeitavam de toda a gente, e eram apanhados. Na forma como explicam isso não há uma compreensão política. Mas há muitos sentimentos, e isso também é político, porque ele são os ocupados. Ao mesmo tempo, desempenham um papel na peça. O que lhes agrada, porque essa é a peça à volta deles. E os pais nem têm ideia do que se passa.
Alguns tinham 13, 14, 15 anos.
Até 12 anos. Houve um de 12 anos que saiu com uma faca, cooptado por outro. No caso dos muito jovens, em geral, há um mais velho que os leva. E o mais velho, em geral, tem problemas em casa. Depois há os que querem resolver os problemas, serem heróis. Acham que serão melhor aceites, ou querem punir os pais. Há muito isso, mas como a sociedade é muito renitente a criticá-los, não têm forma de saber que o que estão a fazer é sem sentido, que não é heroísmo, especialmente os que vão matar civis. Esse é um padrão. O ódio é compreensível, consigo entendê-lo. Mas são arrastados por um mais velho.
Onde colocaria um caso como Baha Alyan [22 anos, protagonista da reportagem na edição de domingo]?
É o caso dos mais velhos, zangados devidos a casos anteriores, pelo que aconteceu a outros miúdos. E esses também também estavam a vingar alguém. É uma cadeia, em que o desejo de imolação tem um papel. Um imita o outro, mas como tem mais recursos, fá-lo de uma forma chocante: Baha e o amigo mataram dois idosos e um homem de meia-idade num autocarro. Mas foi num colonato. E quando olhamos para Jabal Mukaber [o bairro de Baha] e para Armon Hanatziv [o colonato em cima do bairro] realmente podemos sentir toda a arrogância da ocupação em meio quilómetro quadrado.
Baha foi uma excepção?
Em relação a quem está num campo de refugiados e não tem um futuro, sim. Ele tinha um futuro. Mas houve mais como ele. Um rapaz que tinha estudado Medicina, por exemplo. Eles são enterrados com os seus segredos, e no fim de tudo não sabemos.
Qual foi o clique...
Sim, o que realmente pensaram. Depois, há alguns influenciados por Hamas ou Jihad Islâmica. Há uma influência dos media islâmicos, e também dos media ligados à Fatah, menos oficial.
E há as mulheres, que, em grande maioria, tinham fugido de casa. Não é novo: até há dois anos, elas sabiam que iam a um checkpoint, mostravam uma faca e seriam presas, e desejavam isso, porque tinham problemas em casa, incesto, violência. A diferença desde o ano passado é que agora os soldados as matam. Mesmo que elas não os tenham atacado.
Um suicídio.
Um suicídio. Acho que esta vaga começou quando mataram uma jovem de 18 anos que tinha uma faca, foi a um checkpoint em Hebron, creio que para ser presa, porquê, não sei. E foi morta de forma terrível. Varreram-na com balas. Isto encheu as pessoas com tal raiva que fermentou a vaga. Um brasileiro tirou fotografias, o que  tornou o caso conhecido.

É uma forma de suicídio através de um soldado. Numa sociedade que não aceita o suicídio, é mais digno ser assim.
São principalmente de zonas rurais?
Não. Muitas são de Hebron.
Chamo a estes jovens a geração perdida de Oslo [cidade dos acordos de paz de 1993, assinados entre Arafat e Rabin]. Sem futuro, sem se poderem ancorar no heroísmo dos pais, nem na memória de convívio com os israelitas . Quem tenha 40, 50 anos tem alguma memória de convivência entre seres humanos. Agora, tudo o que eles vêm são colonos e soldados. Não há promessa nenhuma, e as promessas anteriores não foram cumpridas. Tudo isto inchou como um balão e explodiu.
Vê também uma tendência de despolitização, no sentido de “eu quero viver a minha vida, ser feliz”?
É outra tendência. De certa forma, um fenómeno de classe. Quem mata são sobretudo os pobres. Não sempre, mas a maioria. Muitos de campos de refugiados, de aldeias pobres. Nesse sentido, Baha é de facto uma excepção.
Embora não fosse rico.
Não, mas tinha um futuro. E é preciso perguntar, porque uma pessoa como ele está a fazer isto? O que isto diz sobre este regime? De alguma forma foi o que ele escreveu nos seus mandamentos de um mártir no Facebook, um ano antes, quando disse que não queria que os políticos o aproveitassem. É uma geração sem qualquer confiança em líderes, do Hamas, da Fatah.
E porque é que a sociedade decidiu que não se ia envolver massivamente?
Porque sabia que não ia conseguir nada. Não queria sacrificar-se. Na Segunda Intifada, [os bombistas suicidas] eram enviados por grupos. A grande maioria também não se juntou à luta armada, mas aceitou ser punido colectivamente. E agora ainda aderiram menos. As manifestações foram sobretudo nas universidades, e em algumas aldeias.
O colectivo não é estúpido, sabe quando é o momento. E intuiu que não ia conseguir nada, que seria em vão. Porque não há uma liderança, não há aliados, também não há aliados entre a maioria dos israelitas, Israel é muito cruel. E as pessoas perderam o hábito de luta popular: é preciso prática, uma rede de ligações, a sociedade está fragmentada. Mal a Segunda Intifada começou, circularam pela Cisjordânia, apesar dos checkpoints. Isso não aconteceu agora. Em Fevereiro, quando houve uma greve de professores, milhares contornaram os checkpoints da Autoridade Palestiniana [AP], que não queria essas manifestações. Portanto se tivessem querido protestar contra a ocupação tinham conseguido. O argumento de que não se manifestam porque a AP os reprime, não faz sentido. Quando há uma massa, a AP não consegue reprimir.
Chegando a Ramallah ao fim de anos, é impressionante a quantidade de construção, carros, trânsito. Há dinheiro a circular.
Sim, muitos empréstimos.
As pessoas têm empréstimos, carros, casas. Isso também contribui para que não haja mobilização? As vidas estarem mais estabelecidas?
Sim. Mas também tinham casas na Primeira Intifada, estavam em relativa boa situação. Talvez de forma menos “luxuosa”, mas quem se envolveu tinha coisas a perder. Acho que as pessoas se disporiam a perder o que têm agora se sentissem que conseguiriam algo. Não é tanto o medo de perder, mas perder em nome de alguma coisa. Quanto pode ser sacificado quando as lideranças são estas.
E como é que esta liderança de Mahmoud Abbas ainda está no poder, se não acha um palestiniano que o apoie? Quem o apoia?
O mundo. O mundo quer ver uma solução dois Estados. Não faz nada por isso, mas quer manter a pessoa que a representa, então dá-lhe dinheiro, e ele controla todo o dinheiro. E é assim que controla a Fatah. Acho que uma parte da Fatah ainda espera um milagre, que o mundo intervenha. Mas não é isso que está a acontecer.
Por que não aparece uma nova geração de líderes?
Não há um mecanismo que o permita. A educação política é muito má. Os novos que foram presos protestam por causa do dinheiro que deviam estar a receber. Os velhos prisioneiros ficam supreendidos, dizem: na Primeira Intifada, dávamos dinheiro à organização, não esperávamos dinheiro dela. Isto foi um resultado de Oslo, toda a gente ter um salário, um posto, o que criou uma atitude diferente em relação ao que é lutar pela liberdade. Tornou-se algo convertível em dinheiro. A AP, o Hamas em Gaza, recrutam pobres para as organizações militares, que são uma forma de criar clientela, quem não tem dinheiro ganha um salário assim. Portanto, cria-se lealdade a um regime mas não a uma ideia.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Máximo Ferreira:uma vida a abrir horizontes

De volta aos seus leitores após férias, marsuilta divulga uma entrevista ao astrónimo Máximo Ferreira, responsável pelo Centro de Ciência Viva de Constância. aqui junto da sua terra natal, o astrónomo luta pela generalização da cultura científica, um sonho que transporta consigo e que através do seu projecto  vai cumprindo. quem escuta Máximo Ferreira dificilmente não ficará contagiado pela magia do universo.


entrevista concedida ao jornal DN: http://www.dn.pt/portugal/entrevista/interior/maximo-ferreira-fazia-40-quilometros-de-bicicleta-por-dia-para-trabalhar-e-estudar-5366425.html


Não viu a chegada à Lua, porque estava debaixo de água num submarino, e não tem muita esperança de ainda ver os primeiros passos em Marte, mas isso não impede Máximo Ferreira de continuar a lutar para abrir os horizontes às novas gerações. E acredita em extraterrestres, mais do que em Deus, e nesta conversa explica porquê, começando pela infância.



Nasce numa pequena aldeia do Ribatejo, Montalvo, onde só havia escola primária, e entra na faculdade para estudar Física já adulto, casado. Como aparece esse fascínio pelo universo?


É bastante tardio. Não teve nada que ver com a infância, apesar de ter uma grande ligação à natureza. Curiosamente, não havia muita ligação à observação do céu, mas à terra, aos animais, às plantas. O meu avô era um pequeno agricultor, os meus pais trabalhavam no campo e eu, nem me lembro se era com sacrifício ou não, trabalhava com eles. Tínhamos duas cabrinhas que guardava quando saía da escola. Ia pelos sítios que a minha mãe dizia, levava a sacola com os livros e fazia os trabalhos de casa. Lembro-me de que só mais tarde ouvi falar de um cometa que foi visto em 1956, tinha já 8 anos, e que não vi, porque a família tinha o hábito de se deitar muito cedo, não tínhamos luz elétrica em casa.
Mas queria estudar?
Sim, sim. Lembro-me de que as pessoas diziam que eu era bom aluno e quando fiz a quarta classe o meu sonho era ir... Algumas professoras incentivavam-me muito para que continuasse a estudar. Portanto fiz o exame de admissão, entrei no liceu de Abrantes e aí surgiu um problema familiar - não foi um problema, era uma realidade -, a minha família não tinha posses. Talvez tivesse para um filho, mas nós éramos quatro e o meu pai, se não podia dar a todos não dava a nenhum. Eu era o mais velho e se ele abrisse mão deste princípio ficava ali com uma dificuldade muito grande. Penso que depois nenhum dos outros irmãos teria gostado de continuar a estudar, mas o meu pai levantou algumas objeções. A minha mãe, que estava motivada pelas outras senhoras, entrava ali em conflito, e só me lembro de que disse "pronto, então eu não vou estudar".


Foi nessa altura que foi trabalhar como moço de recados numa metalúrgica no Tramagal?
Não era capaz de estar parado, queria aprender um ofício, como se dizia. Queria ser eletricista, mas depois queria estudar eletricidade. Só que naquele tempo, não tendo ido para o liceu, só se podia estudar de noite na escola industrial de Abrantes, e só se podia entrar aos 14 anos. Como não se encarava muito bem que o menino terminasse a quarta classe e ficasse ali sem fazer nada, fiz algumas coisas, aprendi música e tocava lá numa filarmónica, fui sacristão e ia às missas, aos funerais e casamentos. Quando faltava um mês para fazer 12 anos, o meu pai já trabalhava na metalúrgica, e eu fiz umas provas de admissão e lá entrei, mais uns quantos, umas quantas crianças.
Continuava a viver com os seus pais em Montalvo?
Sim, e fazíamos todos os dias de manhã dez quilómetros de bicicleta até ao Tramagal e depois regressávamos à tarde. Quando fiz os 14 anos já podia entrar na escola - a metalúrgica dava uma hora por dia aos estudantes - e então eu ia de bicicleta com o meu pai de manhã, saía às quatro da tarde, ia para casa, mais dez quilómetros, estudava alguma coisa, preparava as coisas, depois ia para a escola para Abrantes, mais dez quilómetros. As aulas acabavam às 11 da noite, regressava de bicicleta, mais dez quilómetros. Fazia 40 quilómetros de bicicleta por dia, para trabalhar e estudar, e no outro dia levantava-me às seis da manhã para ir trabalhar outra vez.
Hoje aos 12 anos muitas crianças não vão sozinhas para a escola...
Hoje aos 12 anos são criancinhas mesmo. Naquela altura, aos 12 anos, a metalúrgica pegava nos miúdos, iam fazendo de moços de recados, conhecendo as secções, e quando chegavam aos 14 começavam a aprender um ofício, o tal ofício. Entretanto, em Abrantes, quando cheguei para aí ao terceiro ano, aos 17 anos, comecei a achar que não queria ficar na filarmónica nem ser mecânico na metalúrgica, queria era continuar a estudar. E para continuar decidi ser voluntário na Marinha. Isso foi a dificuldade maior para o meu pai. Porque eu ia afastar-me da família e vir para Lisboa era sempre um perigo, podia estragar-me.
Mas veio... Tinha que idade?
Dezassete anos e meio, que hoje em dia também são meninos. Na Marinha ficava-se na caserna e as condições iam melhorando à medida que nós íamos subindo. Mas até era uma vida melhor do que aquela que tínhamos lá na aldeia. Mesmo que tivéssemos de tomar banho com água fria depois do treino às sete da manhã, tínhamos as refeições sempre a horas, passávamos o dia nas aulas, era mais calmo. Depois de acabar esses cursos todos na Marinha, estive quatro anos nos submarinos, na área de eletrónica e comunicações.
Andava pelo mundo fora?
Sim, pertencia à guarnição do submarino, éramos dois desta especialidade, um em cada. Vinha a esquadra americana e dizia que queria ali um submarino para treinar e nós lá íamos. Não andámos propriamente pelo mundo, íamos até à Madeira, Inglaterra, França... Mergulhávamos aqui à segunda-feira e depois voltávamos à sexta. Às vezes andávamos nove dias debaixo de água. Tenho boas recordações desse tempo, nunca vi grande perigo, conhecíamos bem o submarino, conhecia muito bem a minha parte, os sistemas de comunicações e deteção dos supostos inimigos.
Mas estamos a falar dos tempos da Guerra Fria.
Ainda da Guerra Fria, sim.
E isso estava presente? Tinha medo?
Não, não. Tinha uma ideia das perseguições políticas, da PIDE, do medo que tínhamos de falar disto ou daquilo, mas não tinha noção política das coisas. Acabei por ter alguma colaboração no 16 de Março, no Golpe das Caldas, e depois no 25 de Abril, mas foi sem perceber bem o que estava montado.
Então no 25 de Abril de 1974 era militar. Como é foram esses dias?
Comecei por ter algum receio. Eu morava no Seixal e vinha no meu carrito e apanhava um autocarro da Marinha no outro lado. Enfim, tudo muito esquisito. "Nós agora vamos para a unidade, mas não sabemos quando é que saímos de lá." Depois fomos ouvindo algumas coisas. Portanto não participei ativamente, acabei por participar uns dias depois, de uma forma caricata, que foi na escola técnica da PIDE que tinha sido assaltada pelos fuzileiros, que meteram umas granadas. Eu que não percebia nada de armas fui comandar um pelotão para garantir que não iam lá os pides durante a noite buscar não sei o quê. Não percebendo bem o que estava a acontecer, achava que era uma situação militar que até tinha piada. Depois fui percebendo. Fui interiorizando o significado, não só relativamente àquelas coisas de que a gente tinha medo antes, de ouvir falar da PIDE. Lá na minha terra dizia-se que quando se ouvia a Rádio Moscovo tinha de se pôr um copo de água em cima do rádio - nós em casa não tínhamos rádio portanto não tínhamos esse problema [risos]. Depois as mulheres que diziam aos homens na taberna "homem, tu não fales assim que um dia ainda vais preso".
É um despertar político tardio?
Sim, sim. Só à medida que foram sendo libertados os presos políticos é que fui percebendo o horror que era o ambiente anterior. Porque eu tinha sido criado numa aldeia onde se organizavam excursões para vir ao Terreiro do Paço apoiar Salazar. Eu vim numa dessas.
Não era um assunto abordado em casa, na família?
Não. O meu pai não seria muito dado a essas coisas. Também não me lembro de em casa o meu pai e a minha mãe falarem de alguma coisa dessas. Mas não sei se a minha mãe não falava. Não sei. Depois arrependi-me de não ter perguntado isto à minha mãe - declarou-se uma doença e em dois meses morreu, portanto não deu para falar das coisas todas que queria ter falado com ela -, mas quando a minha mãe me ia chamar para me levantar para o trabalho falava-me baixinho ao ouvido, dizia "Olá camarada, levanta-te". Mais tarde é que fiquei com dúvidas sobre porque é que a minha mãe me chamava camarada, porque no dia-a-dia não fazia parte da linguagem da família. Será que havia alguns ambientes em que eles falavam de outra maneira? Nunca cheguei a perceber.
Voltando ao caminho para a astronomia, para as estrelas...
Em 1972 fui dar aulas para uma escola da Marinha, de eletrónica, e comecei a dar assistência técnica ao Planetário Gulbenkian, da Marinha, em Belém. E começa aí o meu contacto com a astronomia. O equipamento simulava o céu, fui tentando perceber aquelas coisas e eu, que queria ir para o Instituto Superior Técnico fazer Eletrotecnia, acabei por decidir ir para a Faculdade de Ciências fazer Física, porque era a ferramenta para depois me tornar um astrónomo, um astrofísico. Só entro na faculdade em 1974.
Para a universidade, onde tinha acabado de entrar, foram anos de ebulição.
Foram, mas como eu não tinha tempo para estar na universidade nunca cheguei a ser muito envolvido nisso.
Continuava na Marinha. Já era casado?
Continuava na Marinha, ainda como militar, depois passei a civil, e entretanto casei-me, faltava um mês para ter 23 anos. Mas estava numa situação em que já não era bem militar, estava ali em Belém, e dentro da universidade houve algumas alterações e eu fui fazendo disciplinas, continuei a estudar Física e depois fiz alguns cursos no país e fora, andei a correr atrás de eclipses do Sol, porque havia lá umas coisas da física solar que era interessante estudar. Devo lembrar que nessa altura havia pouca gente em Portugal dedicada à astronomia e à divulgação científica, que já fazia no planetário, e à medida que fui ganhando mais conhecimento isso tornou-me mais capaz. Fui fazendo algumas coisas que mereceram aceitação, mas também só existia eu e pouco mais. Hoje, felizmente, não é assim e foi para isso que eu e muitos outros trabalhámos.
Houve sempre uma aposta mais na vertente da divulgação do que que na da investigação. Foi uma decisão consciente?
Exato. Era consciente. Mesmo sem a tal consciência política, de que falava há pouco, havia uma questão ideológica. Eu achava que as crianças na minha aldeia e nas outras aldeias do país não tinham acesso a coisas que são extremamente simples e importantes para a formação e era importante fazer coisas dessas. Colaborei nalgumas áreas de investigação, na física solar, mas colaborei muito na formação de professores, mesmo não tendo funções docentes. O que fiz foi ir para as escolas com esses professores porque obviamente tinha a noção de que sozinho bem podia andar por aí os dias e as noites que não conseguia fazer nada. Foi uma aposta que não posso dizer que tenha sido completamente ganha, mas teve bons efeitos. E isto é um período em que aparecem muitas pessoas, associações, um movimento que não parou mais e deu os seus frutos. Depois aparece José Mariano Gago e estas atividades que eram mais ou menos descoordenadas começam a ter uma linha e hoje em dia temos investigadores espalhados pelos quatro cantos do mundo, a fazer peças para câmaras que vão num satélite para o espaço em 2020, a descobrir planetas... e essa gente que agora faz isso vem deste espírito.
O professor Mariano Gago teve um papel muito importante?
Teve, foi fundamental. Quando ele é ministro as coisas mudam de figura, no sentido em que se deixou de se fazer aqui, fazer acolá. Toda a gente via nele um companheiro de luta nesta promoção da cultura científica, sabendo que daí viriam resultados para o cidadão comum. Teve consequências no afluxo de pessoas que foram para as áreas científicas.
É inevitável que essas pessoas estejam hoje espalhados pelo mundo, fora do país?
É, é inevitável, por várias razões. E há aqui coisas que eu em tempos não entendia bem. Ainda hoje às vezes tenho tendência... se tenho na minha equipa uma pessoa que é muito boa, tenho vontade que ela não saia de cá, mas fazendo isso faço mal à pessoa e à minha instituição. Essa pessoa é muito boa, mas podia ser muito melhor se fosse trabalhar noutros laboratórios, noutras condições, com outras ideias. Depois, posso não a ter sempre, mas sempre que posso tê-la ela vem mais rica e mais capaz de fazer o que já fazia e de ajudar-nos a nós a perceber o que podemos fazer diferente.
Na astronomia é muito óbvio, muitos dos nossos astrónomos mais famosos hoje trabalham no estrangeiro.
Pois, porque por um lado não há nenhum país que seja capaz de fazer sozinho, por exemplo, o complexo que nós temos no Chile [o rádio-observatório ALMA]. Tem de ser um conjunto de países, financeiramente, e depois traz outro benefício que é a mistura de culturas, de personalidades. A partilha é fundamental. Abrir é fundamental. Há coisas na globalização de que eu não gosto e são perigosas e são más, mas neste aspeto da partilha científica, acho que é fundamental.
Além dos avanços na investigação, a literacia científica da sociedade, no geral, melhorou?
Nunca se melhora o suficiente. Devo confessar que os últimos quatro ou cinco anos foram muito maus, não só para aqueles que sofreram as limitações que foram impostas, quer no domínio do ensino quer no domínio da investigação, mas piores ainda para o futuro. Porque neste hiato em que não se investiu as coisas foram funcionando com os que já lá estavam e alguns deles com muito sacrifício - estou a pensar em bolseiros, investigadores, que deixaram de ter apoio e viveram muito à custa até do apoio das famílias para não terem de abandonar os projetos e não terem de ir para um balcão. E portanto há aqui um hiato que daqui a uns anos se vai notar - a produção dos investigadores portugueses na globalidade vai diminuir exatamente porque não houve uma manutenção deste fluxo. E ao nível do ensino acabou por desanimar muito os professores, complicar a vida dentro das escolas e portanto a qualidade do ensino diminuiu. De qualquer das formas o que devemos todos fazer é tentar trabalhar e tentar que não sejam tão más como podem parecer.
Sabemos o suficiente de ciência? Sobretudo as pessoas que seguem áreas não científicas...
Não perdoo que uma pessoa com formação académica superior tenha falhas de cultura científica. Considero incrível que se mexa num micro-ondas ou um telemóvel sem a mínima noção do que está a acontecer. Isso é uma coisa que qualquer cidadão devia saber, seja de Filosofia, seja de Medicina, seja do que for. Mas a culpa não é só das pessoas. Se calhar é menos das pessoas do que do sistema e dos que são responsáveis pelo sistema. É falta de prática, do ensino prático. Voltamos ao mesmo: aquilo que foi eliminado nos últimos cinco ou seis anos. Agora se me perguntar como isso se faz, como se inclui nos currículos, é mais complicado. Mas a minha função é dizer que se houver experimentação há coisas que saem naturalmente.
Viveu muitos anos em Lisboa e depois voltou para Constância. Como é que aconteceu essa mudança?
Quando chegou a altura de me aposentar da universidade, olhava para o panorama da divulgação e já havia muita gente a fazer coisas. Achei que já não era preciso aqui dentro da cidade e para ir fazer para outros sítios tinha a minha terra. Voltei e continuei este trabalho de divulgação científica. Portanto era um sítio onde eu gostava de ter alguma calma - isto pensava eu porque depois acabei por ter uma vida ainda mais agitada. Já tinha a ligação à Ciência Viva, tínhamos uma boa relação, o Museu de Ciência, a câmara municipal, a escola, e fui trabalhando. A princípio havia pouco trabalho, agora é que é tanto que não temos mãos a medir. Tenho uma equipa pequena, somos sete, mas é extraordinária. Evidentemente gostava de que as pessoas da minha terra se motivassem mais por aquilo. Enfim, não conseguimos tanto como queríamos, as coisas não são perfeitas e nunca serão, mas temos mais de 20 mil visitantes que vêm de todo o país e o facto de a maioria ser alunos de escolas faz-me sentir que estamos a continuar aquilo que me fazia trabalhar nos anos 1970 e 80.
Sente-se os custos da interioridade?
Sente-se bem. Aqui em Lisboa, ou no Porto ou Coimbra, se se criar um museu de ciência, vamos passear, tomar um café e vemos que está ali aquela coisa. Ninguém vai tomar um café a Constância. Hoje em dia há muitas pessoas que vão ao Centro Ciência Viva ou a um parque ambiental que tem um borboletário tropical, é um ambiente extraordinário. Mas vão os de fora e aos poucos alguns residentes vão perdendo o acanhamento. Sabem mais ou menos onde é, sabem que apareceu na televisão, mas é qualquer coisa que está fora da sua vivência. Até este indicador é suficiente para nos preocuparmos. Em cada local, em cada região, as estratégias para vencer isto são diferentes, em nenhum sítio são fáceis. Na minha terra se fizer uma coisa com a banda filarmónica ou com o rancho folclórico levo muito mais pessoas do concelho. Junto 200 ou 300 pessoas, que é coisa que não consigo mesmo que seja um eclipse do Sol ou da Lua e se disser que as portas estão abertas.
Foi já em Constância que se envolveu na política. Como é que isso surge já depois dos 60?
Devo confessar que entrar na política foi uma ingenuidade minha, mas não estou arrependido.
Essa era a pergunta seguinte.
Não estou. Eu não tenho nenhuma filiação partidária, nunca tive, embora me considere uma pessoa de esquerda. A minha ligação à câmara veio do trabalho no Observatório Astronómico, o presidente era uma pessoa com quem falava francamente, a quem algumas vezes propunha uma ou outra coisa, mas a maior parte das vezes era ele que propunha. Quando decide não continuar houve um conjunto de pessoas, próximas dele e da formação partidária que o apoiava [a CDU], que me convidaram. Tive algumas reticências, primeiro porque não tinha experiência política. Mal sabia que era muito mais inexperiente do que pensava. Depois porque o meu projeto era o Centro Ciência Viva e esta coisa de me ir ligar a uma força partidária ia pôr outras forças a olhar para o meu projeto de maneira diferente. De toda a maneira fui olhando para as perspetivas, eventuais candidatos, e achei que as coisas eram piores do que se fosse eu.
E aceitou...
Aceitei com estes prejuízos do projeto e também com prejuízos materiais. Por aí foi um desastre. Mas eu tinha-me posto a estudar na universidade umas coisas relacionadas com património, museologia social, e havia ali umas quantas coisas de património que achava que era um crime estarem a degradar-se. Já estava habituado a trabalhar com pouco dinheiro e portanto aceitei e com convicção, não fui arrastado.

Como é que foi a experiência?
A experiência demonstrou-me que ser presidente de câmara é muito mais difícil do que se pode pensar, que merecem muito mais respeito do que a generalidade dos políticos lhes dá. Aprendi que não é possível modificar as pessoas e alguns hábitos. Por exemplo, e isto acontece em todo o país, o meu concelho tem três freguesias e é preciso um cuidado terrível por causa dos melindres entre as três. Eu achava que podia atenuar aquilo com algumas medidas, mas é muito mais difícil. Foi possível fazer, mobilizar pessoas, começar a recuperar património, definir um projeto. Foi possível ter um sonho. A parte menos boa foi de facto a relação política. As pessoas da oposição deitam abaixo, os que nos apoiaram acham que devíamos estar lá a fazer aquilo que eles querem e portanto tive alguns problemas. Evidentemente que não repetiria, mas foi uma boa experiência. Neste momento não tenho nenhum problema com as forças político-partidárias da região, tenho o meu projeto, todos com respeito por aquilo que se faz, e penso que todos empenhados na convicção de que é um equipamento fundamental para a terra, para a região.
Lembra-se da chegada do homem à Lua ?
Não. Em 1969 estava a acabar o curso de submarinos e penso que estaria debaixo de água nessa ocasião. É um acontecimento que aprendi a apreciar, independentemente de ser o produto da rivalidade entre americanos e soviéticos - dentro da comunidade científica aquela Guerra Fria não era assim tão fria. Há uns aspetos menos bonitos nas competições, mas também há coisas positivas. Acabei por perceber alguns pormenores que agora me ajudam a convencer pessoas que ainda não acreditam que o homem tenha ido à Lua.
Ainda acontece muito?
Pois, se as pessoas não têm nenhuma ideia do que é preciso fazer para sair da Terra, o mais fácil é que digam que é impossível sair da Terra. Depois ir daqui até à Lua, pousar e trazer coisas... isso é impossível. Se a seguir se vê um filme com um homem a andar na Lua ou em Marte. E há uma certa preguiça mental...
Mas há páginas inteiras com argumentos, as chamadas teorias da conspiração.
O que aconteceu logo nas primeiras vezes que isso apareceu foi que os próprios Estados Unidos tiveram de reconhecer que tinha havido ali manipulação das fotografias por uma questão de propaganda. Naquele tempo se calhar as pessoas que fizeram aquilo não pensaram que houvesse gente que tivesse a perspicácia de ir ver aquilo.
Não havia o mesmo escrutínio?
Não a este nível e só passados bastantes anos é que apareceu esta discussão. Mas, não sendo tenazes a perceber as dúvidas, facilmente as pessoas se refugiam numa coisa, seja um filme de ficção ou alguém que disse que é tudo aldrabado. Agora, precisamos de raciocinar de outra forma: num ambiente de Guerra Fria alguma vez os americanos diziam que tinham pousado na Lua e os russos ficavam calados? Aliás, há uma das missões Apollo que pousa quase ao mesmo tempo e à vista de uma sonda soviética, daquelas não tripuladas. E muita da tecnologia que nós hoje utilizamos na Terra só existe porque foi preciso desenvolvê-la [para as missões]. Lembro-me de um exemplo que se utilizava muito: o computador que dentro da nave controlava as tarefas todas que era possível controlar tinha as dimensões de um quarto de uma casa. Hoje os nossos telemóveis têm mais capacidade. E isto surgiu não só de outras necessidades tecnológicas, mas desse período em que era preciso fazer as coisas quanto mais pequenas melhor para pesarem menos, gastarem menos combustível, ser mais fácil lançar.
Com toda a tecnologia que temos não temos a capacidade de ir à Lua no próximo ano. Ou simplesmente não é interessante?
É só porque não é interessante. De resto não era necessário ir lá cinco vezes como se foi. Foi uma jogada fundamentalmente política. O Kennedy disse "vamos pôr um homem na Lua" e pôs. E depois o ir mais vezes... É verdade que foi melhor ter ido lá. Nós ainda hoje medimos a distância entre a Terra e a Lua com rigor lançando um laser para um refletor que os americanos deixaram lá. Porque é que os chineses estão agora com esta coisa de ir lá? Fundamentalmente para testar tecnologia e para mostrar ao mundo que são capazes.
Então é Marte que nos interessa?
É Marte. Do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico, por um lado, e do desenvolvimento da capacidade de adaptação do ser humano a voos prolongados. Eu não acredito que se vá a Marte em 2030. Não é por uma questão física e psicológica humana. Agora andam seis astronautas na Estação Espacial Internacional e nós mantemos regularmente contacto. Se houver um desequilíbrio vai daqui um foguetão e dois dias depois a pessoa está cá em baixo. E conseguimos perceber mais ou menos como as pessoas reagem àquela situação de isolamento. Para ir a Marte são precisos dois ou três anos e não se consegue testar para ter a garantia de que a pessoa vai aguentar. O que nos impede de ir a Marte já não é a tecnologia, é uma questão humana. E o objetivo é ver como é possível encontrar um mecanismo de adaptação ao espaço.
Marte é o ponto de partida para a exploração do espaço?
É sempre assim. Lembro-me de que há uns anos no planetário, com o Conselho Nacional de Cultura, fizemos uma sessão em que estávamos com uma paisagem de Lua à volta e víamos a Terra nascer. O Mega Ferreira lia "estamos no ano 2025, os pais mostram aos filhos o sítio de onde vieram"". E a Lua está a 380 mil quilómetros. Depois tínhamos uma outra imagem que mostrava Saturno, que está 1500 milhões de quilómetros de distância e tem a maior lua do sistema solar que é Titã. E num outro texto ele descrevia Titã como a guarda avançada do sistema solar. Como a plataforma para depois fazer viagens para fora do sistema solar. Se nós quisermos ir mais longe o que podemos fazer é ir step by step. Portanto eu vou daqui até à Lua, depois para Marte, monto uma base...
Acha que vamos em breve?
É provável que sim, embora mais lentamente do que se anuncia. Os próprios investigadores juntam à capacidade tecnológica o seu desejo. Nós mandámos uma nave que ficou dez anos à espera de um cometa e o cometa veio, mandámos um equipamento que se afunda em Júpiter e vai funcionando e transmitindo dados. Tecnologicamente fazem-se maravilhas. Agora gostávamos de juntar a isso uma coisa que é mais difícil: enviar uma pessoa. Também não sei se teremos uma evolução da lógica. Hoje quando pensamos em mandar alguém para Marte pensamos no regresso, mas daqui a duas ou três gerações pode ser que já não haja este apego à Terra.
E nas nossas viagens, no futuro, acredita que vamos encontrar vida inteligente, que existe?
Sim, acredito. E agora vai perguntar-me com que base? Apenas por uma questão de lógica. Começamos pelo mais simples: as condições que ocorreram na Terra não podem ocorrer noutro local ? Podem. Então vamos pensar em estrelas como o nosso Sol - pode não ser assim, mas vamos ser exigentes. Em seguida excluímos as estrelas mais jovens porque emitem muita radiação ultravioleta, e as mais velhas porque emitem menos energia e porque já dilataram e pode ser que tenham engolido os planetas. Se quisermos estrelas idênticas ao Sol ficamos com uns 20 mil milhões e basta que se tenham formado planetas à volta e basta que um esteja nesta posição, nem muito perto nem muito longe, como está a Terra. Depois que o planeta tenha mais ou menos o tamanho, a mesma massa. Porquê? Porque achamos que a atmosfera que ficou aqui presa ficou graças à gravidade. Se for muito pequeno perde a atmosfera; se for maior, eventuais seres que se formem por lá não podem ser como nós. Podem ter ocorrido alguns acasos na evolução na vida na Terra, mas se reduzirmos estes números para metade ainda há uma quantidade enorme de hipóteses para que a vida exista.
E o contacto?
Também há razões para não haver contacto. Mas já não posso dizer que seja uma questão de fé. Aqueles números que referia... estamos a falar na nossa galáxia. Mesmo que em cada galáxia só exista um planeta com condições, temos 140 mil milhões de galáxias e portanto 140 mil milhões de planetas. Agora o que nós dizemos é que comunicar... As viagens levariam mais anos do que os que temos de vida. Então achamos que as civilizações podem existir e nós não contactamos com elas nem elas connosco. Claro que depois aparecem pessoas que dizem que vêm aí os ovnis e os extraterrestres passear.
E vêm?
Cientificamente achamos muitíssimo pouco provável. Não dizemos que não mas... Agora, outro processo: nós comunicamos nas ondas rádio e se os indivíduos estiverem por aí talvez tenham dado com esse sistema de comunicação, mas podem não ter dado com ele, podem comunicar noutras frequências. Ou, como o Carl Sagan dizia um pouco a brincar, podem já ter dado pela nossa existência e ter chegado à conclusão de que nós estamos para eles como está uma minhoca para nós.
Falou em fé. Tem fé em Deus? Há muitos cientistas que acreditam?
Não. Devo confessar que por volta dos 17 anos fui quase ateu, mas depois, sem nenhum esforço, tornei-me simplesmente agnóstico. É uma questão que não tem que ver propriamente com a ciência. Há cientistas que se sentem bem com essa componente espiritual. Não tantos assim, mas há alguns. Há um indivíduo que é professor catedrático na Faculdade de Ciências, agora já jubilado, que é padre e ensinava Física Nuclear. Saía da faculdade no Príncipe Real e ia à Igreja de São Mamede dizer a missa. Não podemos é querer usar isso como argumento e dizer se aquele cientista acredita em Deus é porque Deus existe, ou o contrário. O lado espiritual está dentro da pessoa, pode contribuir para o seu bem-estar, não vejo mal. Agora, não preciso de Deus para as minhas coisas.

para leitura integral da entrevista siga aqui: http://www.dn.pt/portugal/entrevista/interior/maximo-ferreira-fazia-40-quilometros-de-bicicleta-por-dia-para-trabalhar-e-estudar-5366425.html

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Concurso Fotográfico Internacional Andrei Stenin

Os vencedores do concurso internacional Andrei Stenin de fotogtafia deste ano já são conhecidos. foi a agência internacional de notícias Rossiya Segodnya, responsável pelo concurso, sob os auspícios da comissão nacional russa para a UNESCO, quem anunciou os vencedores e outros premiados.



          Foto da série "Luz e linhas de polo aquático" de Konstantin Chalabov que foi premiada
na categoria "Desportos"


Os vencedores do ano em curso na categoria "Principais Notícias" são os fotojornalistas Ammar Abdullah, da Síria, com a foto "Os que Fogem da Morte" e Balazs Beli, da Hungria, com a série de fotos "Rota Balcânica". Na categoria "Cores do Mundo. Harmonia da Vida" são Elena Anosova, da Rússia, com a obra "Refúgio Distante" e Fyodor Telkov, também da Rússia, com a série de fotos "Velhos Crentes". Na categoria "Esportes" foram destacados Aleksei Malgavko, da Rússia, com a foto "Campeonato do Mundo em Esportes Aquáticos 2015. Saltos Ornamentais" e Aleksei Filippov, da Rússia, com a série de fotos "Confrontação".
Na categoria "Meu País" o primeiro prémio foi atribuído a Elena Chernomortseva, da Rússia, com a obra "A História que a Água nos Conta" e Dmitry Tkachuk, da Rússia, com a série "Silêncio Branco".

          Foto da série "Silêncio branco" de Dmitry Tkachuk que venceu na
categoria "Cores do Mundo. Harmonia da Vida"


 Na categoria "Retrato. Herói Contemporâneo" foram premiados Svetlana Bulatova, com a série de fotos "Movlid" e Danilo Garcia Di Meo com, com a série "Letizia, História de uma Vida Ignorada". A lista completa de vencedores e outros premiados está disponível no site stenincontest.ru. A cerimônia de entrega de prémios e abertura da exposição está marcada para 30 de agosto de 2016 no Museu de Moscou. No mesmo evento será tornado público o nome do vencedor do Grande Prêmio especial. O organizador do concurso é a agência internacional de notícias Rossiya Segodnya sob os auspícios da Comissão Nacional Russa para a UNESCO.

"É uma honra para nós anunciar os vencedores e premiados do concurso 2016. Neste ano introduzimos novas categorias para dar aos jovens fotógrafos a oportunidade de abranger um leque mais amplo de assuntos. O concurso reuniu fotojornalistas de 71 países e de todos os cinco continentes. É muito agradável que muitos jovens talentos que foram descobertos no ano passado, como Elena Anosova, Darya Isaeva, Matic Zorman, tenham participado do concurso neste ano. Quero destacar que o júri do concurso não podia ignoram muitos trabalhos, que faziam com que todos pensassem, mergulhassem na história que a foto ou série mostra. Por isso, foi decidido introduzir várias notas de júri", disse o diretor do Serviço Fotográfico da agência Rossiya Segodnya, Aleksandr Shtol.

ver notícia em:
http://br.sputniknews.com/cultura/20160804/5938370/stenin-concurso-fotos-vencedores.html


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Dada a turbulência mundial em que vivemos, com a ameaça terrorista, tentativas de golpes de estado, golpes permanentes à democracia, agressões climáticas, descredibilização de instituições supranacionais, é importante a reflexão sobre este momento em que vivemos. precisamente o título da crónica que aqui lhe deixamos é  como chegámos a este caos? a sua autoria é de Roberto Savio, jornalista italo-argentino, que fundou a Other News, un servicio que proporciona “información que los mercados eliminan.


Cómo llegamos a este caos?

Una maldición china dice “Ojalá que le toquen tiempos interesantes”, ya que demasiados acontecimientos perturbarían el elemento esencial de la armonía, base del panteón chino.

Y estos son, por cierto, tiempos interesantes, en que se acumulan acontecimientos dramáticos, desde terrorismo a golpes de Estado y desde desastres climáticos pasando por el declive de instituciones hasta agitación social. Sería importante, aunque difícil, repasar brevemente cómo llegamos a esta situación de “falta de armonía”.
Comencemos por algo conocido. Tras la Segunda Guerra Mundial, hubo consenso en la necesidad de evitar que se repitiera el horror vivido entre 1939 y 1945. La Organización de las Naciones Unidas (ONU) fue el foro que reunió a casi todos los países, y la consiguiente Guerra Fría propició la creación de una asociación de jóvenes estados recién independizados, los Países No Alineados, devenidos en una zona de contención entre Oriente y Occidente.
La brecha entre el Norte y el Sur Global se convirtió en el asunto más importante de las relaciones internacionales. Tan así que en 1973, la Asamblea General de la ONU adoptó de forma unánime una resolución sobre el Nuevo Orden Económico Internacional (NOEI). El mundo acordó un plan de acción para reducir las desigualdades, impulsar el crecimiento global y hacer de la cooperación y el derecho internacional la base de un mundo en armonía y en paz.

Tras la adopción del NOEI, la comunidad internacional comenzó a trabajar en ese sentido y tras la reunión preparatoria de París, en 1979, se organizó una cumbre con los jefes de Estado y de gobierno más influyentes en el balneario mexicano de Cancún, en 1981, para adoptar un plan de acción global.
Entre los 22 jefes de Estado y de gobierno presentes, estaban el presidente estadounidense Ronald Reagan (1981-1989), elegido pocas semanas antes, quien se encontró con la primera ministra británica Margaret Thatcher (1979-1990), y ambos mandatarios procedieron a anular el NOEI y la idea de cooperación internacional. Los países diseñarían políticas según sus intereses nacionales y no se inclinarían ante ningún principio abstracto.
La ONU comenzó su declive como ámbito para fomentar la gobernanza. El lugar para la toma de decisiones pasó al Grupo de los Siete (G7) países más poderosos, hasta entonces un órgano técnico, y otras organizaciones dedicadas a defender los intereses nacionales de las naciones más fuertes.

Además, otros tres acontecimientos ayudaron a Reagan y a Thatcher a cambiar el rumbo de la historia.
El primero, fue la creación del Consenso de Washington, en 1989, por el Departamento del Tesoro de Estados Unidos, el Fondo Monetario Internacional (FMI) y el Banco Mundial, que impusieron la política según la cual el mercado era el único motor de las sociedades y los estados pasaron a ser un obstáculo y debían achicarse lo más posible. Reagan incluso evaluó la eliminación del Ministerio de Educación.
El impacto del Consenso de Washington en el llamado Tercer Mundo fue muy doloroso. Los ajustes estructurales redujeron drásticamente el frágil sistema público.
El segundo, fue la caída del Muro de Berlín, también en 1989, que trajo aparejado el fin de las ideologías y la obligada adopción de la globalización neoliberal, que resultó ser una ideología todavía mucho más estricta.
La globalización neoliberal se caracterizó por el predominio del mercado, que liberó a las empresas “libres” o privadas de toda obligación con el Estado; la reducción del gasto público en servicios sociales, la que destruyó las redes de protección social; la desregulación, la disminución de toda regulación estatal que pudiera reducir las ganancias, y la privatización, la venta de las empresas estatales, de bienes y servicios a inversores privados.

Además, implicó la eliminación del concepto de “bien público” o “comunitario” y lo reemplazó por la “responsabilidad individual”, obligando a las personas más pobres a buscar soluciones por su cuenta para su falta de atención médica, de sistemas de educación y de seguridad social y luego culpándolas de su fracaso, considerándolas “flojas”.
El tercero, fue la eliminación progresiva de las normas que regían al sector financiero, iniciada por Reagan y terminada por Bill Clinton (1993-2001) en 1999, en el marco de la cual los bancos de depósitos pudieron utilizar el dinero de sus clientes para la especulación.
Entonces, las finanzas, consideradas el lubricante de la economía, siguieron su propio camino, embarcándose en operaciones muy riesgosas y sin relación con la economía real. Actualmente, por cada dólar de bienes y servicios producidos, se generan 40 dólares en transacciones financeiras.
Ya nadie defiende el Consenso de Washington ni la globalización neoliberal. Quedó claro que si bien desde el punto de vista macro, la globalización aumentó el comercio e impulsó el crecimiento financiero y global, a escala micro, resultó un desastre.
Los defensores de la globalización neoliberal sostenían que el crecimiento le llegaría a todo el mundo. En cambio, se concentró cada vez más en un número creciente de manos. En 2010, 388 personas concentraban la riqueza de 3.600 millones de personas. En 2014, ese número se redujo a 80 personas, y en 2015, a 62.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Apoio à manutenção do arquivo de Georg Lukács

O húngaro Georg Lukács foi um dos fundadores do marxismo ocidental, assim como, historiador literário, professor, filósofo e crítico do sec. xx. após a sua morte a sua casa tornou-se um arquivo - o arquivo Lukács, sob a autoridade da academia húngara de ciências. a partir do momento em que o governo de direita em curso na Hungria chegou ao poder, o arquivo de Georg Lukács tem estado sob um ataque brutal. perdeu a subvenção da academia de ciências e o governo pondera vender o imóvel onde está instalado o arquivo. se assim for perdem-se de vista os documentos históricos e extensa biblioteca nele contidos. Marsuilta junta-se aos amigos de Lukács no apoio à manutenção do seu arquivo ciente que é o benefício das futuras gerações de investigadores e uma transformação socialista em que estamos empenhados. junte-se a nós e divulgue esta mensagem. igual apelo foi feito pelos amigos da Monthly Review através do texto do amigo de Lukács István Mészáros que aqui deixamos reproduzido.

From John Bellamy Foster - A Request to Friends of Monthly Review:

From the time the current rightist government in Hungary came into power, the archive of Georg Lukács–a preeminent Marxist of the 20th century–has been under a brutal attack. It has been gradually deprived of its subvention from the Hungarian Academy of Sciences and of its ability to pay its staff. Now, the government threatens to sell the property on which it is located and disperse the archive. A foundation has been formed in Hungary to endeavor to protect and preserve the archive. A number of Monthly Review editorial committee members, authors, and friends have joined this effort and have helped to organize an international letter of support. To further that effort, Monthly Review author and friend István Mészáros has asked us to address an appeal to you:

Dear Friends and Comrades,

My greatly beloved Teacher and Friend, Georg Lukács, lived in an Apartment on the bank of the river Danube.
I was privileged to stay with him there on countless occasions over the years.
After he died, that Apartment became the Lukács Archive, under the Authority of the Hungarian Academy of Sciences.
Sadly, however, due to Government interference, the Archive is now threatened with Closure, and his Library and historically most important Documents with a totally uncertain future.
This should not be allowed to happen.
Thousands of people expressed their support in Hungary and all over the world in favor of the Lukács Archive.

It would be a great help if the Readers of Monthly Review joined them in every way in this vital effort to save the Lukács Archive, for the benefit of future generations of Researchers, and for our shared cause of a socialist transformation.

 In solidarity,
 István Mészáros 
Please consider adding your name to the letter of support

John Bellamy Foster
for the editorial committee of Monthly Review

link do apelo para a criação de uma fundação internacional independente
http://www.save-georg-lukacs-archive.org/

texto original em: http://monthlyreview.org/

 

terça-feira, 19 de julho de 2016

uma história de encantar

É uma história de guerra e um "milagre da guerra" como o próprio título da reportagem indica. quem a escreveu foi o jornalista ricardo j. rodrigues, e com ela ganhou o prémio Gazeta 2015 na categoria de imprensa. ora esta história tem tudo de belo como de assombro e são precisamente estes os adjectivos que fausto também canta no seu disco "Madrugada dos Trapeiros e  a música é "Atrás dos tempos outros tempos vêm", canção tão apropriada à história que aqui deixamos.


Um milagre na guerra

Em 1965, em Angola, um grupo de soldados portugueses encontrou uma bebé de 2 anos no meio do mato. Acolheram-na no quartel e trouxeram-na depois para Portugal, onde cresceu sob o olhar do regime e o apoio dos militares. Esta é a história de Isabel Batata-Doce, da sua demanda pelo passado e de como conseguiu construir, no meio da incerteza, uma improvável felicidade.
 
O BATALHÃO 525 chegou a Angola a 27 de julho de 1963. Era constituído essencialmente por rapazes do Minho, que passaram o primeiro ano na zona quente dos Dembos e o segundo em Catete, 60 quilómetros a sudeste de Luanda. Aqui a presença portuguesa era cimento – somava séculos de colonização. «À primeira vista parecia muito mais calmo», conta agora Antonino Araújo, 75 anos, que tantas vezes patrulhou o terreno. «Mas na verdade era uma zona pantanosa e de vegetação densa, onde os guerrilheiros atacavam quando menos se esperava. Era muito perigoso.» A guerra, que começara em fevereiro de 1961 em Luanda, e nos meses seguintes se tinha intensificado no Norte do país, espalhava‑se agora à região centro, terras quimbundas. Foi precisamente aí que as quatro companhias do 525 estacionaram – aquarteladas ao longo da estrada para Salazar, atual N’dalatando, capital do Cuanza Norte.

A Companhia 522, com mais de uma centena de homens, estava em Barraca, a cinquenta quilómetros do comando de Catete. «Numa manhã pediram‑me para fazer o patrulhamento da zona inimiga, era alferes e liderava um pelotão com 12 soldados», lembra Antonino. Avançaram sem medo até à picada que abria caminho para a Fazenda Alegria, uma plantação de algodão no meio do lamaçal. Depois, atravessaram o rio Zenza, infestado de jacarés. A partir daí, o trilho cumpria‑se com perspetiva de fogo. Ouvissem um restolhar nas árvores e os homens carregavam‑lhe chumbo.
«Estávamos em terreno perigoso, tivemos de rastejar uma parte do caminho e fazer outra de cócoras», e Antonino diz que isso era o pão nosso de cada dia em terrenos da guerrilha. «Não podíamos usar as catanas para abrir passagem, isso fazia demasiado barulho.» Então avançavam lentos, a conquistar arranhões. Duas horas depois, desembocaram numa clareira. Antonino viu logo uma mulher negra, de seios fartos, que carregava uma criança nas costas e outra nas mãos. Assim que a mulher viu os brancos, desatou a correr para o mato mais denso. O alferes ainda lhe gritou «não fujas que eu não te faço mal», mas ela sabia estar em zona de tiro aberto. Fugiu. E esta história começa aqui. Ao subir uma colina, o lenço soltou‑se e o bebé que a mulher trazia no dorso caiu. A mulher prosseguiu a fuga, com a outra pela mão. Mas deixou um problema para os soldados. Um problema que, deitado no capim, chorava.
Perseguir a mulher era perda de tempo, já levava avanço na fuga e conhecia o terreno. Por isso os homens olharam para Antonino, à procura de direcções. O alferes pegou na criança, nua, e enrolou‑a no pano de onde tinha caído. O bebé calou‑se logo e ficou, de olhos abertos, a observar os soldados, sem medo algum. Tinha uma cicatriz na virilha e várias feridas na cabeça, mas de resto parecia estar bem. Deixá‑lo ali, à mercê dos animais, seria um crime. Antonino já vira demasiadas desgraças em Angola, esta não seria uma delas. «Levamo‑la connosco», anunciou. Os outros respiraram de alívio. As guerras estão cheias de histórias assim, raios de dignidade no meio da escuridão.
Até Barraca os homens revezaram‑se a transportar a criança. Mal chegaram, anunciaram o achado. «Se ficarmos com ela, alguém tem de vir buscá‑la», justificou‑se perante os superiores. «Se a mulher tinha fugido, era porque alguma coisa tinha a esconder», reflete Antonino, cinquenta anos depois. Contactaram o comando em Catete. E Manoel Junqueira, comandante do batalhão, perguntou pelo rádio: «É macho ou fêmea?» Era uma rapariga. «Então que venha para aqui», ordenou. A menina foi transportada de jipe para a sede do batalhão, a mais de cinquenta quilómetros do local onde a tinham resgatado ao capim.
NO DIA 29 DE SETEMBRO DE 2015, cinquenta anos depois deste episódio, uma mulher entrou no arquivo do Diário de Notícias para procurar um jornal antigo. Nos andares abaixo do chão da sede do DN, há um piso que encerra 150 anos de história da imprensa portuguesa, e uma caixa‑forte com as publicações mais antigas e valiosas, incluindo uma coleção de desenhos originais de Stuart Carvalhais. Numa sala maior, dividida em dois pisos ocupados com prateleiras que vão do chão ao teto – e são paredes que medem seis metros –, está guardado o acervo do jornal. Todas as páginas de todas as edições, encadernadas em grossos dossiês cinzentos, um por cada mês de cada ano, ao longo de século e meio. Foi aí que se procurou aquilo que Isabel Jacinto pedia. A pesquisa durou um mês.
Os arquivistas acabaram por encontrar o jornal na prateleira A da estante 3. Em novembro de 1965, no dia 1, a primeira página do Diário de Notícias mostrava a fotografia de uma criança de uns 3 anos, rodeada de militares e religiosos. E este título: «Promessa cumprida: os soldados encontraram a pretinha no mato e batizaram‑na no Santuário do Sameiro.» Isabel voltou ao edifício e pediu logo uma impressão. Quando saiu, Simões Dias, diretor do arquivo, ligou para o quinto piso, onde fica a redação da NOTÍCIAS MAGAZINE: «Acho que tenho aqui uma história para vocês.» Daí a uns dias haveria um almoço do batalhão que a encontrara em Angola e a trouxe para Portugal, para celebrar os cinquenta anos do regresso. Isabel queria levar o jornal para mostrar aos antigos soldados. Mas também queria fazer perguntas, tentar reconstruir a memória do que não se lembra. «Eu sei tão pouco, e gostava tanto de saber mais.»

Os dados pessoais são o primeiro indício de barafunda: acredita que tem 53 anos, mas não tem certeza. «Fui batizada em Braga e foi aí que escolheram a minha data de nascimento», explica. Dia de Nossa Senhora, 13 de maio de 1962. «Quando me encontraram, acharam que devia ter uns 2 anos. Mas, vá lá, pelo menos não me chamaram Fátima.» Não perdeu o humor. Apelidos, tem dois, um para cada vida. Para os soldados e a família que a acolheu em Portugal ela é Isabel Batata‑Doce, porque em Angola passava dias a comer o tubérculo que cresce em Angola. No bilhete de identidade é Isabel Manuel Jacinto, filha de Manuel Jacinto Diogo e Eva Manuel Adão – pais biológicos que não conheceu.
De há uns anos para cá, Isabel anda a tentar perceber o passado. É isso que faz, também, no quartel da serra do Pilar, em Gaia. Hoje é dia de celebrar cinquenta anos do regresso a salvo, há uma missa e um almoço de convívio. Uma centena de homens aderiram ao encontro e Isabel conhece uma boa parte deles. A mulher já tinha participado no almoço dos 25 anos, e também num encontro na capital com os poucos militares – sobretudo oficiais – que viviam em Lisboa. Ao longo do dia, Isabel há de ser abraçada por duas boas dezenas desses veteranos, sobretudo os que estiveram em Catete. «Olha a Batata‑Doce» e muitas lágrimas. Ela não reconhece a maior parte dos rostos, mas entrega‑se aos abraços. Há-de dizer mais tarde que aqueles homens foram a sua família.
Toda a gente tem, no entanto, uma história para contar a Isabel. «Tantas vezes que brincavas comigo.» «Lembras‑te de quereres andar às minhas cavalitas?» «E quando me vinhas pedir batata‑doce?» Sobram recordações de afetos, mas faltam os factos – e são esses que Isabel quer saber. Nenhum daqueles homens tem sequer certeza da data em que Isabel foi apanhada. Contam‑lhe outras coisas, mas isso ninguém consegue confirmar. A resposta está no Museu Militar, em Santa Apolónia. O Arquivo Histórico Militar do Exército, que guarda as ordens de serviço do Batalhão 525, diz que em janeiro de 1965 «foi capturada uma criança às tropas inimigas pela Companhia 522». É a única captura infantil em mais de dois anos de comissão.
VISITAÇÃO TEIXEIRA DE CARVALHO tinha chegado pouco tempo antes a Catete para se instalar com o marido no quartel. Marcelino era oficial miliciano, dirigia o setor de informações, e isso dava‑lhe alguns privilégios como o de poder mandar vir da metrópole a mulher e a filha que tinha 2 anos e se chamava Luísa. Tinham casa numa fazenda próxima, onde não corriam riscos de maior. «Todos os dias íamos de manhã para a messe, era lá que almoçávamos e jantávamos, e tornávamos antes de a noite cair.» Um dia, o major Fiúza Álvares, segundo no comando do batalhão, chegou‑se ao pé das mulheres dos oficiais e das suas crianças que por ali andavam e anunciou: «Minhas senhoras, trago aqui um presente para vocês.» Embrulhada num pano, vinha uma bebé negra.
«Estava toda suja e arranhada e trazia uns cordões presos aos pés, feitiços de proteção Quimbundos», lembra Visitação, que lhe deu os primeiros cuidados. Disse aos soldados que fossem dando banho à criança, e foi a casa buscar um vestido da filha. A criança não chorava, antes olhava com curiosidade para o admirável mundo novo. Tendas enormes, movimento constante, ruídos de máquinas e metal, uma canção diferente do mato. «Nunca a ouvi perguntar pelos pais», diz Visitação, que tem uma teoria para o facto: o quartel, cheio de gente que lhe pegava ao colo e rodopiava pelo ar, era um tremendo parque de diversões.
Luísa, a filha de Visitação, tornou‑se a melhor amiga de Isabel. Passavam os dias juntas, tinham a mesma idade e decididamente as mesmas brincadeiras. «E quem é que a obrigava a usar cuecas ou sapatos?», recorda Visitação. «Nunca consegui convencê‑la e não me lembro de os querer usar até chegar a Portugal.» Hoje, Luísa é madrinha da filha da amiga de infância. Há uma foto tirada em Catete há cinquenta anos que as duas repetem, agora, em Leça de Palmeira, onde vivem os Teixeira de Carvalho, e onde Isabel vai depois do encontro com os soldados. Ainda são amigas. Em Portugal, Isabel haveria de passar muitas vezes férias com os Teixeira de Carvalho. Em cinquenta anos, nunca perderam o contacto.
Apesar da amizade com a família de Luísa, foi na camarata das transmissões, com Manuel Cândido Ferreira, que Isabel ficou a morar em Catete. O aquartelamento de tijolo gozava de melhores condições do que o do resto das tropas. «Sabe, ela foi uma bênção para nós», diz o homem, comovido, ao recordar esse momento no encontro da serra do Pilar. «No meio da escuridão da guerra, tínhamos ali uma criança para tomar conta. Isso era um raio de luz, fazia‑nos sentir outra vez humanos.»
A maior parte daqueles rapazes nunca tinham saído da sua aldeia em Portugal. Desembarcavam numa Angola em guerra e África era outro mundo, estranho e hostil. Tudo ali lhes pedia dureza, menos Isabel. E eles retorquiam com os melhores cuidados que conseguiam oferecer. A menina dormia na cama de baixo do beliche, não fosse cair ao chão. De manhã Manuel lavava‑a e novamente ao fim do dia. «Às vezes rodávamos entre nós quem a levava à messe para comer. Mas uma vez vi um soldado a dar‑lhe vinho. Encostei‑o a um canto e ia dar‑lhe uma sova valente, só que os oficiais viram‑me a ser agressivo e puseram‑me de castigo.» A partir desse dia, no entanto, nunca a criança tornou a fazer uma refeição sem a vigilância de Manuel.

sábado, 16 de julho de 2016

brexit, uma alavanca para a esquerda ?

mais uma reflexão sobre os resultados do brexit. uma reflexão profunda feita por costas lapavitsas que juntamente aos dados estatísticos do resultado da votação avança com os perigos que uma não mudança no partido trabalhista pode acarretar para o povo trabalhador e mais pobre da Grã-Bretanha. apela a uma força política decisiva para alterar o equilíbrio social que neste momento existe. acaba o autor esta reflexão com a dúvida sobre se a Grã-Bretanha poderá ser um farol de esperança...

 
The Leave victory in the British referendum represents a moment of political confusion — a hiatus in the opposition between social classes. No class appears capable of directing events. The ruling class has no clear plans for the future, and seems temporarily stunned.
The working class and the poor have expressed great anger at the state of affairs of both society and nation, but are also deeply divided, with contradictory ideas prevailing in their midst. The formless middle class is deeply frustrated at the turn of events and would like a firm hand at the tiller, but has no idea how to achieve this outcome.
Such moments call for a decisive political force to alter the social balance. Historically, moments like these have been captured by powerful personalities, who placed their stamp on social development, but there is no Churchill, not even a Pitt or a Wellington, in Britain at present.
 
Instead, the responsibility for taking the country out of the impasse lies with the personnel of the established political parties. Nor will the sense of confusion last long. Already the Tory Party, ruthless electoral machine that it is, has begun to adapt itself to the new conditions. If it succeeds, the outcome for working people will be thoroughly negative. This is the peril of the referendum.
The onus for averting such an outcome and taking the country forward lies with the Labour Party, which also faces profound turmoil. The Labour Party could give shape to the yearnings of the working class and the poor, whether they voted for Leave or Remain.
It is incumbent upon it to present a fresh vision of society and nation, taking Britain down a path that favors the interests of the great majority. This is the promise of the referendum, but for that the Labour Party must put its own house in order.
The referendum has created this sharp choice for Britain because it represents a shift of the tectonic plates in British society. A careful look at the results together with an extensive exit poll of more than twelve thousand people conducted by Lord Ashcroft polls — considered in the context of preceding political events — reveal two rifts, one far more profound than the other.
The Minor Rift
The minor rift is present within the British ruling class: the majority of financiers, industrialists, merchants, real estate speculators, and others favor staying in the European Union, while a much smaller minority have opted for Brexit. The evidence of the relative size of the two sides is undeniable.
More than 80 percent of Confederation of British Industry (CBI) members have come out in favor of Remain,
while a mere 5 percent have declared for Leave. While a veritable roll call of British business leaders signed letters to the press advocating Remain, a vocal and well-connected minority has come out in favor of Leave.
This state of affairs is not surprising. The economic interests of the bulk of the British ruling class lie in close connections with the European Union, particularly in the freedom to trade without barriers within the Common Market.
In 2015 44.4 percent of British exports went to the European Union, while 53.6 percent of imports came from the same; there is no doubt that any significant disruption of these flows through tariffs or other barriers would have a negative effect on British big business.
Furthermore, the financial operations of the City also dictate remaining in the European Union; the City operates as a huge offshore center for the European Union, and despite the fact that the putative integration of European banking would probably have a negative impact on its activities. The Single Supervisory Mechanism and the rest of the regulatory institutions created by the European Union to oversee its Banking Union are likely to affect the freedom of the City to engage in speculative and other business.
Despite this interdependence, Britain is far less integrated into the EU networks than the core countries of the union. Trade links between Britain and the European Union are actually among the weakest within the twenty-eight-member union, similar by order of magnitude to trade flows between Greece and the European Union as well as Italy and the European Union. In contrast, for both France and Germany trade with the EU accounts for nearly 60 percent of exports and 70 percent of imports.
By contrast, the Leave side of the ruling class is a motley group without a strong sectoral character, who partly hope to trade more intensely outside the European Union. More than that, however, Leave supporters hope to advance a more thorough neoliberal agenda by ridding Britain of EU regulations and further reducing labor rights and social protection.
These noble aspirations certainly do not leave the rest of the British ruling class unmoved, and the relatively modest size of the Leave group should not obscure its considerable social weight and significance.
Above all, the Leave side reflects the long-standing suspicion of the entire British ruling class toward the economic and political ambitions of the EU project. Leave supporters have acted as the inner voice of the British establishment, reminding even Remain supporters that something is not quite right with the European Union, even if no-one is entirely clear what that is.
It is not hard to find evidence of the skeptical attitude toward the European Union that extends across the British ruling class but takes a sharp form only with the Leave side. Britain refused to join the European Monetary Union (EMU) and the chances that it would eventually adopt the euro were almost nil.
Avoiding the EMU turned out to be a wise decision in the wake of the 2008–9 financial crisis, but it also gave rise to a long-term problem for Britain, given that the European Union as a whole has come increasingly to rely on the institutions of the common currency. The European Central Bank, the Eurosystem, the European Stability Mechanism, and a host of other institutions that are vital to the monetary union have become the locus of policy-making within the EU.
Indeed, the European Union has effectively reshaped itself since 2010 to ensure the survival of the euro. It is far from clear how Britain would have continued to function within the EU while refusing to participate in the EMU.
Trade relations between the two are certainly important, but trade alone would never have been enough to ensure the integration of Britain into a changing European Union. The Leave side, in its own inarticulate manner, has reflected this core difficulty faced by the entire British ruling class.
The Major Rift
The true significance of the referendum, however, is that the rift within the British ruling class has acted as catalyst for the emergence of a far deeper rift within British society. This is a common occurrence when great historic events take place.
If the ruling is class is uniform in its outlook, it is much harder for deeper rifts in society to come to the surface; the dominated classes have few opportunities to voice their desires and demands. But if the ruling class itself is split, deep social rifts have the potential to become yawning chasms. This is precisely the state that Britain finds itself in.
Income and Employment
It is undeniable that the majority of the poor and the working class in Britain have voted in favor of Leave. According to the Ashcroft poll, 64 percent of the C2, D, and E categories voted for Brexit; these are basically skilled and unskilled manual workers, casual workers, those who depend on the welfare state for their income, and so on.
In contrast, groups A and B — higher and intermediate managerial, or administrative layers — voted to stay. Group C1 — junior managerial, or administrative layers — were split roughly down the middle.
These sociological descriptions correspond poorly with the traditional class categories in Marxist analysis. For one thing, they don’t include a ruling class, or even a well-defined capitalist class. Yet they still highlight the social composition of the voting camps. The poor and the working class have voted, by and large, for Leave.
The middle class, on the other hand, especially the higher professional and managerial groups have opted for
Remain. This seismic shift reflecting a profound divide in British society, lies beneath the class hiatus in the
country at present.
Geography
The significance of this rift is made visible by the geographical distribution of the referendum results (which have been provided by the BBC). The social balance always has a geographical dimension reflecting the distribution of skill, the local accumulation of wealth and poverty, and the historical accretion of class struggles.
Britain as a whole voted 51.9 percent for Leave and 48.1 percent for Remain. Within these percentages, England voted 53.4 percent for Leave and 46.6 percent for Remain — very similar to Wales’s 52.5 percent and 47.5 percent, respectively.
In contrast, Scotland voted 38 percent for Leave and 62 percent for Remain, while Northern Ireland voted 44.2 percent and 55.8 percent, respectively. Thus, there is no doubt that the overall result for Britain was driven by England, which calls for closer examination.
A simple way of capturing the geographical rift in England is to consider the “stronger” results, that is, the local percentages exceeding 60 percent in favor of either Leave, or Remain. This would provide an indication of the geographical concentration of “stronger” views, thus affording sharper insight into the class composition of the vote.
The list below includes the majority of referendum areas that voted at or above 60 percent in favor of Leave, as well as the majority of the referendum areas that voted at or above 60 percent in favor of Remain (hence 40 percent or less for Leave).
More than 60 percent for Leave: Barnsley 68.3%, Basildon 68.6%, Barking & Dagenham 62.4%, Dartford 64.2%, Doncaster 69%, East Riding of Yorkshire 60.4%, Epping Forest 62.7%, Fenland 71.4%, Havering 69.7%, Hartlepool 69.6%, King’s Lynn & West Norfolk 66.4%, Kingston upon Hull 67.4%, Mansfield 70.9%, Medway 64.1%, Newcastle under Lyme 63%, North East Lincolnshire 69.6%, North West Leicestershire 60.7%, Oldham 60.9%, Peterborough 60.9%, Redcar & Cleveland 66.2%, Rochdale 60.1%, Sandwell 66.7%, Scarborough 62%, Shepway 62.2%, South Staffordshire 64.8%, Stoke on Trend 69.4%, Sunderland 61.3%, Tameside 61.1%, Telford and Wrekin 63.2%, Tendring 69.5%, Thanet 63.8%, Thurrock 72.3%, Torbay 63.2%, Wakefield 66.4%, Walsall 67.9%, Wigan 63.9%, Wolverhampton 62.6%.
Less than 40 percent for Leave: Barnet 37.8%, Cambridge 26.2%, Camden 25.1%, Hackney 21.5%, Hammersmith and Fulham 30%, Hackney 24.4%, Islington 24.8%, Kensington and Chelsea 31.3%, Kingston upon Thames 38.4%, Lambeth 21.4%, Lewisham 30.1%, Oxford 29.7%, Southwark 27.2%, St Albans 37.3%, Tower Hamlets 32.5%, Waltham Forest 40.9%, Wandsworth 25%, Westminster 31%.
Several conclusions are immediately apparent:
The “strong” Leave vote was widely and evenly spread across England.
Large groups of the working class in the North voted strongly for Leave.
Areas of pronounced poverty across England voted strongly for Leave.
There were “strong” Leave votes in working-class areas in the South, particularly around London; these are sometimes called “white-flight areas”.
The “strong” Remain vote was extremely concentrated in London, particularly in the working-class areas that contain large concentrations of second- and third-generation immigrants. Note, though, that several of these areas have also been undergoing a process of gentrification and have substantial concentrations of the middle class.
The better-off areas of London voted strongly in favor of Remain. Very few other areas of the country voted similarly, including Cambridge, St. Albans, and Oxford.
There is no evidence at all that the Leave vote was heavily concentrated in parts of the country that have presumably suffered disproportionately from the form of capitalist development of Britain during the last several decades.
On the contrary, the Leave vote was spread fairly evenly across the country, even at its “strongest”. In contrast, the Remain vote was far more heavily concentrated, indeed its “strongest” instances were extremely concentrated in London.
London has always been different from the rest of the country, as all those with even a passing awareness of English history know. At present its concerns and aspirations reflect the large resident middle class whose cosmopolitan outlook typically favors Remain. This class has exceptional access to the media, and its views are transparently out of kilter with the rest of the country.
The concerns and aspirations of London also reflect the large concentration of second- and third-generation working-class and poor immigrants, evident in the strong Remain vote in areas such as Hackney, Lambeth, and Lewisham.
It should be stressed, however, that the cosmopolitan middle class of London enjoys a strong ideological and cultural preeminence in many of these areas as a result of advancing gentrification. This is strengthened by the relatively peaceful coexistence of communities within the areas undergoing gentrification.
The outer periphery of London, in contrast, particularly the so-called areas of “white flight,” exhibits a very different behavior, often strongly in favor of Leave.
In sum, it is apparent that the working class and the poor across England have voted for Leave. This conclusion is
further backed by some of the qualitative findings of the Ashcroft poll. While a majority of those who are working full- or part-time voted to remain, most of those who are not working voted to leave, as did two-thirds of those on a state pension. A similar proportion (two-thirds) of tenants of council and housing association tenants also voted to leave.
The poorest had few doubts, it seems. They wanted out.
This also consistent with another finding of which no little fuss has been made in the international media: those with university degrees, especially higher ones, voted to remain, while a large majority of those with only secondary education voted to leave. The international chatterers discovered to their horror that the working class and the poor, by and large, do not go to university.
Quite obviously then, the strong majority in favor of Leave must have been the result of ignorance, and possibly obtuseness . . . in days of yore the habits of personal cleanliness and the dress codes of Leave voters would also have come in for mockery. Class prejudice against the poor, especially when they dare to express strong views, has never been subtle.
Why Vote Leave?
A referendum is by its nature a binary choice: yes or no. It is undoubtedly an exercise in democracy but of a very special nature conducive to expressing frustration and rejection. In the case of EU-related referenda there is a long history of rejection votes in several countries, most prominently in the Greek referendum of July 2015.
It appears that the people of Europe, when asked about the European Union, express alienation and distaste; united Europe appears not to be a grassroots project.
No wonder that the established powers within the European Union avoid referenda like the plague and take extraordinary action to repeat votes until the “right” result is produced, or even altogether ignore a “wrong” result, as happened most egregiously with the Greek referendum.
The British referendum is indisputably an instance of accumulated frustration among the working class and the poor in England resulting in a protest vote in favor of Leave. The question is, what were they frustrated and angry about, and why was their frustration channeled toward the European Union?
Pressure on Wages, Disposable Income, and Welfare Provision
One key underlying cause is not hard to find: British workers and British households have faced stagnating and even falling wages and disposable incomes since 2000, as Figures 1 and 2 show. The bulk of the British population has faced ever-tighter living conditions for a decade and a half.
The problem of wages and disposable income became especially severe after the major crisis of 2008–9, although there has been some improvement after 2014. That gigantic shock came after three decades of exceptional expansion of finance that has resulted in pronounced financialization of the British economy.
Financialization has produced tremendous profits and benefits for a narrow elite that is often associated with the City of London, while piling up insecurity and economic pressures for working people.