a experiência dos últimos 15 anos de governos progressistas na américa latina foi o tema do discurso que álvaro linera efectuou no final do mês passado no equador. nele explicou os avanços, recuos e êxitos deste processo. abordou e defendeu uma nova visão de democracia inerente a qualquer processo revolucionário. democracia como um espaço com uma crescente participação das pessoas nos assuntos comuns, porque ela é sobretudo uma relação entre as pessoas em tudo aquilo que as envolve no seu dia a dia. ora sendo o estado também um espaço comum de uma sociedade, como diz linera, este estado possui a característica de efectuar a gestão do comum, do universal, do colectivo, e sob esta visão há que perceber a obrigação de tomar o poder, de o transformar, de o construir, sempre numa relação dialéctica, nunca linear e de sentido único. a realidade e experiência mostra que o processo revolucionário é contínuo e em ondas, em que existem rupturas, modificações do sentido comum da sociedade, quebras culturais, onde novos projectos, novas ideias, novas lideranças e hegemonias emergem. é assim que o neoliberalismo tem actuado e uma revolução tem que proceder a uma transformação cultural mas a esta tem que se associar inevitavelmente uma acção de força, de derrota do adversário. e porque a realidade constrói-se em ondas, com avanços e recuos, as ideias, o debate em torno do sentido comum, mobilizadoras, esperançosas, são fundamentais para se conseguir a sua proliferação; para tal não basta o debate governamental, uma frente social forte é imprescindível. como fundamental é, na opinião de álvaro linera, a gestão económica. diz linera que também "se é revolucionário na capacidade de gestão da economia. o futuro aqui se definirá". que decisões a tomar para possibilitar às pessoas o seu bem-estar, a sua qualidade de vida, a sua satisfação interior? a distribuição da riqueza, a produção e a dialéctica que se estabelece entre ambas responderá à pergunta. resposta que imperiosamente tem de articular o bem estar económico com a preservação do planeta, o que aparentemente é uma contradição, mas não o é. finaliza linera com a questão nacional estatal, explicando de forma clara e transparente as duas etapas do neoliberalismo: de 1980 até 2000/2005 e depois até hoje. primeiro o neoliberalismo precisou do estado nacional para transferir o excendente, cumprindo o estado a função de privatizar e de dar coesão cultural e ideológica no sentido de manter articulada a sociedade às decisões governamentais. a fase de hoje do neoliberalismo, menospreza o estado nacional, na óptica do vice-presidente da bolívia, este não lhe é útil e cómodo, interessa sim desmembrar, debilitar o seu funcionamento, através da criação de áreas de oposição extraterritoriais e depois promovendo guerras civis e intervenções militares; por outro lado, promove noutros locais do globo a perda de soberania, conduzindo à implosão dos estados, à promoção de uma coesão ideológica por estruturas supraestatais e divisão de toda a sociedade. e é na luta, na luta das pessoas que reside para linera o futuro do seu continente e de todos os países.